sexta-feira, setembro 19

A Viagem (que nem deu em novela)

Tá bom.
O GPS não falhou. E nem deu tempo de curtir o submundo.
Submundo? É. Ontem tive que me aventurar a ir até a Cidade Nova.
Ah, Renata, qual é o mistério?
Pra você, que se acha, nenhum.
Pedi mil indicações, olhei mapa na internet, tudo para tentar garantir com 100% de certeza que eu não ia padecer perdida em algum lugar bem além dos quais eu estou acostumada a ir. Mas, o que aconteceu foi que eu peguei um ônibus, fiz uma viagem de uma hora e meia de ida - onde tive tempo de ler TODO o jornal e depois me peguei namorando o cu da Lapa e pensando como era uma coisa curiosa ter tanta funerária no mesmo quarteirão até me deparar com o IML, que, se eu não tivesse visto em toda a sua grandeza, jamais teria a menor noção de onde era a sua versão física - aí saltei direitinho, reconheci um prédio, olha que maravilha!, achei o que eu queria, atravessei a rua, peguei outro ônibus e fiquei mais uma hora inteira lá dentro olhando a paisagem e pensando na vida.
Carioca adora reclamar de trânsito, de engarrafamento e tal, mas eu gosto. Dá tempo de ler as coisas que eu preciso, de pensar em todas as coisas que eu não preciso, de admirar as ruas, os prédios, as pessoas - e eu gosto um bocado de admirar as coisas. É um bom passatempo.
Um bom passatempo que não pra fazer toda hora, claro, porque gasta-se tempo e eu não disponho mais de tanto tempo quanto costumava dispôr.
A única coisa ruim é que eu me lembrei de um comercial que eu vi há muitos anos atrás, onde aparecia um rapaz de pé e fazendo cara de dor enquanto andava de ônibus e aí a câmera mostrava que o ônibus estava vazio e vinha o anúncio de um remédio de hemorróidas. Eu não tenho hemorróidas, mas que a minha bunda ficou bem doída, isso lá ficou. Bancos de coletivos já foram mais confortáveis.
E, contrariando todas as regras, eu não me perdi.
Submundo porque a área tem um quê de submundo. É suja, é pobre, é velha. Eu acho um charme. É bacana observar os sobrados, onde nascem plantinhas do nada e que têm lojinhas de badulaques enfeitadas com estrelinhas do lado de funerárias da época da vovó do lado de verdadeiros pés sujos com neguinhos sovaquentos que ficam do lado de barbeiros que ainda usam navalhas e jalecos, saca? Sem definição melhor, é kitch, é bonito. Mas eu não deixo de ter um medinho bem grande de ficar perdida entre as ruelas do lugar sozinha, penteada, cheirosa e fina do jeito que eu sou.
Acho que semana que vem até vou fazer de novo!
Hehe

Horóscopo

Eu quis rasgar o jornal em um milhão de pedaços quarta-feira quando li o horóscopo, aí hoje eu acho que os astros resolveram me compensar pela decepção e eu já fiquei feliz e crente de novo.

"Todos os anos, sempre entre os dias 19/09 (Hoje) e 07/10, o Sol em trânsito se conjuga à Lua do seu mapa, Renata. Este tende a ser um período feliz e de particular brilho pessoal, mas só se você estiver colaborando para esta felicidade. Traduzindo em miúdos, este ciclo age como uma espécie de "catalisador" para aqueles que vêm tomando atos construtivos e que estão se empenhando em algum projeto que envolva o próprio desenvolvimento. Para aqueles que se encontram na inércia, este ciclo também não deixa de ser positivo, e tem a ver com uma "sacudida" que o Universo dá na pessoa, estimulando-a a despertar, a acordar pra vida. "

quinta-feira, setembro 18

Paliativos

* Quando a coisa aperta muito, eu taco logo um chocolate dentro da boca. Chocolate libera endorfinas e, como eu aprendi quando assisti "Legalmente Loira", pessoas que produzem endorfinas ficam felizes e pessoas felizes não matam as outras. Tudo bem a endorfina dela era gerada pela malhação, que não seria uma má idéia, mas todo mundo sabe que não sou chegada nisso apesar de precisar e que, essa parte da vingança nunca dura mais que dois meses e sempre me leva a gastar muito mais dinheiros do que eu posso me dar ao luxo. Assim sendo, chocolate fica liberado até dia 20 - depois eu tenho mesmo que fechar a boca. Nem por vingancinha, mas porque eu tenho um casamento vindo aí e se eu usar essa profilaxia muito tempo não vou caber dentro do meu incrível vestido verde musgo que eu adoraria ter trocado pelo incrível vestido verde-água.

* Estou me consolando pensando que a minha conta de telefone há de diminuir consideravelmente - assim como outras contas, desconfio - o que me dará uma verba extra para adquirir várias coisas fúteis, brlhantes e cor-de-rosa que eu cobiço diariamente.

* Não preciso mais depilar nada se eu não quiser. Essa liberdade de escolha é algo que sempre me regojiza. A única pessoa que olha as minhas coisas agora é a minha filha e ela acha o maior barato a mamãe ter espinhas na perna. Sem sacanagem nenhuma, poder andar parecendo um king kong se isso lhe convir é o máximo da liberdade feminina.

* Por outro lado, agora, mais do que nunca, é preciso depilar as sobracelhas e fazer as unhas com uma regularidade religiosa. Os cabelos eu já pintei. O resto também tem que ficar um brinco. Faz tempo já que o slogan é "posso até morrer, mas morro linda!". Não vou morrer, com certeza, pelo menos não de morte morrida. Não tenho a menor intenção. Mas linda eu vou ficar. Choro em público está terminantemente proibido porque borra a maquiagem e eu sou uma mulher muito fina.

* Também é bom pensar que a meta sempre foi ser agora o que meus amigos foram aos 20 anos, só que numa versão aprimorada e bem mais velha (no sentido implicante da coisa mesmo - não era essa a palavra, mas cabe) da coisa. Preciso viver para estudar e virar a mais cabeçuda das criaturas para poder arrumar um emprego fodão. As noites de final de semana em que a Olívia estiver em casa serão muito bem aproveitadas lendo todos os textos e coisas e livros que eu tenho para ler, porque assim eu vou ficar sabendo tudo e vou aumentar meu cr e... papo nerd da porra...

Ai, eu posso listar mais um monte de coisas, eu acho, mas vou ao submundo agora...
Eu compreendo também que preciso mudar de assunto.
Compreendo que se eu conseguir voltar da minha excursão à caixa prego, teremos assunto.
Compreendo que eu não me enganei e continua chovendo fininho, apesar de um solzinho bunda estar querendo sair.
Compreendo que adorei escrever compreendendo coisas... (hehe)

Sabedoria e Melodrama

Essa coisa de virar adulta de fato me deu a compreensão de vários fatos cacetes da vida.
A uma hora da manhã, eu compreendo que a minha monitoria vai acontecer e que eu vou ter que estar lá daqui a pouco, chova ou faça sol, dormida ou insone – como é o caso. Compreendo que a previsão do tempo errou feio ao declarar que a quinta-feira seria de sol, porque chove pra caralho ininterruptamente e eu já estou de saco cheio de andar pelas ruas molhando os sapatos e passando meus dias sentindo um frio de doer os ossos. Compreendo que eu vou ter que ir até onde o vento faz a curva na hora do almoço, num lugar longe, bem longe mesmo, onde eu não sei nem chegar, debaixo de chuva e rilhando os dentes. Compreendo que um tempo desses faz ser muito mais tentador ficar na fossa e que as minhas tentativas de rir, brincar e fingir que a vida é azul e que eu estou feliz estão numa escala super reduzida. Eu compreendo que o dia será negro e que eu vou me foder.

Talvez não tanto como hoje.
Eu compreendo que a gente nunca deve dizer que não pode ficar pior, porque sempre pode, sempre pode. Compreendo que ainda existem um milhão de coisas que eu tenho que aprender e erros que eu não deveria repetir, como pôr a mão no fogo por causa de qualquer outra pessoa que não seja eu. Compreendo que as pessoas sempre podem te decepcionar mais do que você algum dia esperou que elas te decepcionassem. Eu também compreendo que não é tão ruim assim, visto que eu já passei por isso algumas vezes e continuo insistindo, acreditando e ficando mais teimosa, difícil e neurótica a cada ano que passa; mas vivinha da Silva e ainda achando coisas cor-de-rosa.

Compreendo que melodrama é chato pra caralho, mas também compreendo que eu posso me dar ao luxo de dramatizar um pouco neste momento – mesmo tendo a plena compreensão de que vai passar e de que, provavelmente, ainda vai acontecer de novo. Compreendo que ando sendo lobotomizada, e com muito orgulho, mas quase caí pra trás ao ler o vienense analisando as pessoas com mania de limpeza e tendências artísticas e sua inserção na civilização – desisti quando cheguei no amor.

Compreendo que hoje desisti quando cheguei no amor. Compreendo que, de repente, me bateu uma pilha de que eu estou me sentindo uma espécie de Lady MacBeth pós-moderna; a diferença é que eu compreendo que por mais que eu limpe e lave e troque, as imagens não vão sumir da minha cabeça. Compreendo que eu entrei na fase do enjôo; onde músicas vão me enjoar, programas de tv, comidas, que até a pequena sereia, coitada, vai levar a sua parte nisso.

Compreendo que hoje tenho todo o direito a melodrama que eu quiser. Que o coração parece que vai explodir dentro do peito. Compreendo versos de Vinícius, expressões adolescentes. Compreendo que o mundo não vai parar por causa disso. E compreendo que vou levar um tempo a base de paliativos até que consiga chegar à parte do amor de novo.

Foda é que ser praticamente um clone do Mestre Shi-Fu não me ajuda em nada.
Não hoje.

Pedido de Desculpas (nem tão) Público Aos Amigos Amados Pelos Anos de Zoação

(...Diretamente de duas semanas atrás...)

Eu tenho vários amigos jornalistas.
Acontece que quando eles estavam na faculdade, eu estava correndo atrás de peitos meio cabeludos, músicas barulhentas e romances de Stephen King. Enquanto eles discutiam apaixonadamente as coisas que aprendiam e descobriam e o novo mundo que se abria para eles, eu adorava rir de me acabar e sacanear dizendo que eles eram todos muito cabeçudos.
Os anos se passaram e o amor entre nós continuava assim. Renata e os Cabeçudos.
Quantas vezes eu não saí correndo de um programa cabeçudo! Quantas vezes não quase fui atacada a tapas por algum deles (na verdade, essa foi uma vez só, mas eu tenho certeza de que existia mais gente querendo)!
E então, lá em cima, alguém lá em cima resolveu que ia ser deveras engraçado e recompensador aos pobres cabeçudos sofredores meus amigos, se eu pagasse pela minha língua em vida. Deve ter olhado lá de cima, o safado, e dito:
- CONTINUE A DAR TUA RISADA, Ó HEREGE! TU TAMBÉM HÁS DE FAZER JORNALISMO! TU TAMBÉM HÁS DE VIRAR UMA CABEÇUDA! MUWAWAWAWAWA!!!
E aí, dito e feito. Cá estou eu. E cá estou eu, encantada de estar fazendo o que tanto desdenhei por anos e anos a fio, depois de procurar em todos os lugares possíveis por uma saída de um destino tão impossível de se sair.
Peço perdão.
À força, tenho sido obrigada a me confrontar com temas e autores que jamais veria, leria, pesquisaria e aprenderia se não fosse a faculdade. E isso tem sido encantador.
Peço perdão.
Assim sendo, tenho me flagrado em situações de discussão destes temas e autores em público e com outras pessoas.
Peço perdão.
Eu virei um ser tão cdf, mas tão cdf, que eu perco as noites do meu final de semana fazendo trabalhos, enquanto minha filha e meu namorado ficam na beiça – que eu vou dar monitoria para um professor!
Peço perdão.
Hoje, consegui, mais uma vez, me sentir um pouquinho mais inteligente ao sacar que ando sacando tudo de Platão (ainda que precise dormir com alguns livros debaixo do travesseiro por uns dias pra ver se a coisa toda entra por osmose*, já que tempo hábil pra ler todos os volumes que eu peguei emprestado, nem se eu nascer em outra vida). É maravilhoso quando a gente consegue se sentir mais inteligente, mais hábil. Fico extremamente orgulhosa de mim mesma!
Peço perdão de novo.
E de novo.
E de novo.
E quantas vezes forem necessárias.

Não que tenha adiantado de alguma coisa entender de Platão, assim que a luz acendeu no meu já prejudicado de várias maneiras cérebro, ouvi aquela voz: “Aula que vem eu começo Aristóteles”. Aí senti vontade de sair correndo gritando.

Dentre esses amigos, dois em especial, merecem pedidos de perdão eterno de minha parte por todos os anos de sofrimento, chacota, zoações e toda a sorte de sacanagens verbais das quais eu me utilizei ao longo desses mais de 20 anos do amor que eu tenho por vocês.

Ainda assim, prometo não discutir tudo isso em público a não ser que seja extremamente necessário e declaro para os devidos fins que, sim, posso estar sendo atacada por um vírus mutante do cabeção, mas continuo perseguindo meu peito cabeludo, ouvindo músicas barulhentas e tentando ler todos os romances de Stephen King (coisa impossível, porque o homem escreve mais rápido do que eu posso bancar pelos livros dele, ainda faz o favor de procriar escritores igualmente palatáveis a minha pessoa e; se eu só o lesse, como ia ler as outras coisas cabeçudas?).


De vez em quando ainda uso trancinhas!

Lá em cima, alguém gargalha, rola e sente vingado.

*Como todo mundo sabe, eu acredito em muitas coisas. Bruxas, filipetas, jornais, Papai Noel, Duendes, Elfos, Fadas, Santos, simpatias e por aí vai... Então um dia eu li em algum lugar qualquer que se a gente quisesse decorar alguma coisa, bastava ler rapidamente, pôr debaixo do travesseiro e dormir, que as palavras ficariam gravadas. Eu acredito nisso até hoje. Não sei se funciona, mas é lírico pra mim e eu gosto da liberdade poética da coisa.
(Que comentário mais cabeçudo esse meu!)

terça-feira, setembro 16

Saudades de quando...

Eu tenho muitas saudades daquelas sessões que alguns cinemas tinham que eram tipo 11 da manhã, meio-dia. Essas sessões só existem hoje, pelo que me consta, em um cinema lá no Centro da cidade e eram uma verdadeira maravilha!
As únicas pessoas que frequentavam eram os velhinhos e alguns adolescentes que matavam aula. Eram vazias, tranquilas e, geralmente, mais baratas.
Agora, que eu tenho dois longos intervalos nas minhas obrigações acadêmicas por semana passei a sentir uma saudade imensa delas! Eu poderia vir à faculdade, sair, ver um filminho, voltar, numa boa...
Sem elas, eu fico à mercê de uma cantina cheia de guloseimas calóricas e matadoras ou enfurnada em uma sala gelada feito o ártico fazendo nada na internet e pensando em uma variedade de coisas que não prestam e não me dão futuro.
Tudo bem que, às vezes, eu estudo.
Tudo bem que, às vezes, eu consigo fazer as unhas.

Até o pão francês agora vai levar farinha de mandioca, o que me leva a crer que estão aniquilando meus pequenos prazeres e que eu estou me tornando um ser antigo de verdade - quase da Era Mesozóica.

E ainda por cima não tenho visto filmes o suficiente e não consigo terminar nenhum livro há semanas (tudo bem que isso pode ser porque eu ando lendo vários textos variados e um livro inteiro)!

Cara, a vida é muito dura, viu?

segunda-feira, setembro 15

Momento Exposição

Tem uma amiga que anda com a fixação de eu me transmutei na Bree - personagem de um seriado que tem mania de limpeza de cria um par de filhos pivos - e, tirando a parte dos filhos, que eu gostaria que se saíssem bem melhores que um veado e uma piranha sem nenhum escrúpulo, talvez ela tenha lá alguma razão no que diz.

Como o Mundo sabe e eu já escrevi um sem número de vezes, eu sempre curti as minhas dores de cotovelo. Passava dias, em um caso bastante célebre passei duas semanas inteiras, deitada na cama chorando, botando pra fora aquela dor do fim.
Quando era novinha achava linda essa coisa de morrer de amor.
Mas, com o passar dos anos e a chegada da filha, meu tempo pra isso ficou bastante reduzido. Passei a poder gastar um dia, no máximo, com a minha dor, debaixo dos meus lençóis.
Também venho aprendendo - não sem decepção - que a maioria dos clichês que as pessoas te dizem são verdades verdadeiras. Hoje em dia não se morre mais de amor, existe pílula pra isso; além do mais é cafona - bem mais cafona do que eu me definiria.

A dor de cotovelo geralmente advém de uma briga; e não necessariamente com um homem, amigo também vale, filho, então, nem se fala!
E, quando ela vem. Vem forte. Vem mesmo.
E eu me deito. E choro.
Aquele choro de cair dormindo e ter dor no corpo no dia seguinte que poucas pessoas se permitem. É preciso se permitir lavar a alma nessa escala e eu sempre me permiti.

Dessa vez, não me deitei.
Não no primeiro dia.

No segundo, levantei, no meio daquele silêncio e daquele espaço gigantesco que vira a minha casa quando eu estou sozinha e fui limpar tudo.
Faxinei aquilo como se não houvesse amanhã. Como eu não faxinava há mais de um mês. Faltaram só as pás dos ventiladores da sala porque eu tive medo de cair da escada e as janelas da porta da varanda, que eu já não tinha mais coluna para encarar.
E enquanto eu limpava, fui percebendo que o meu modo de expurgar as coisas tinha mudado de lugar; que enquanto eu limpava, varria, lavava, trocava lençóis, estava limpando também qualquer coisa física, qualquer cheiro, qualquer cabelo que pudesse ter ficado no meio do meu caminho para que eu pudesse continuar.
O silêncio já durava dois dias - o maior tempo de silêncio em todo esse tempo.
E eu lidei com ele achando um disco, uma calça, um cordão - rastros que eu nunca deixei espalhados pelo espaço dele, e que estavam ali pra me lembrar como isso tudo vai ser difícil, doído.
Eu fiz isso até não aguentar mais, até caírem gotas de suor pelo meio do meu rosto, até o meu corpo reclamar do movimento pesado - até que eu sentisse que o ambiente estava limpo o suficiente.

Mesmo assim, ele não está limpo o suficiente.
Não vai estar tão cedo.
Coisas continuam aparecendo, hoje o silêncio acabou.
No meio do silêncio repeti mantras, lembrei clichês, desenterrei histórias - tudo para me certificar que eu vou ficar bem. Porque eu preciso ficar bem.
Hoje, existe a mentalidade imbecil de que eu tenho que ser forte em absolutamente todos os minutos da minha vida diária porque existem uma série de responsabilidades e compromissos que estão cagando horrores se eu estou bem ou não, que continuam funcionando e demandando.
Essa noite demorei a dormir, acordei durante a noite várias vezes, todas pensando NO assunto. Acordei e fui imediatamente repetir os passos de ontem e arrumar, lavar, cozinhar - deixar tudo um brinco de diamantes e distrair a minha cabeça do que me é realmente importante.
Quando o silêncio quebrou, eu já não tive mais tanta certeza de que eu vou conseguir ser tão forte assim - seja qual for a decisão que eu vá tomar. O coração aperta, duas lágrimas fogem, a pior parte, que é a da dor, começa a vir cobrar a sua fatia da história.
Continuo sem tempo para deitar e chorar e sei que vou chegar em casa e vou repetir os feitos da manhã que já foi bastante longa.
Talvez eu tenha me transformado mesmo.
Talvez isso funcione para não me deixar cair.

sexta-feira, setembro 12

A Aventura do Gelo

Consta que era um hábito da minha época, mas eu nunca fui e não tenho lembrança dessa coisa de "Hollyday on Ice". De toda forma, de repente começaram a pipocar uma tonelada de shows infantis "on ice" por aqui nos últimos meses. Como eu nunca tinha ido, nem acho lá muita graça nessa viadagem de patinação no gelo, o apelo pra mim era uma coisa próxima ao zero; e se eu já achava uma coisa meio gay, o que eu posso dizer sobre o ursinho Poo (que, quando eu era criança, chamava Puff) piruetando no meio de uma arena de gelo que não possa fazer deste post uma coisa mais preconceituosa?

Mas, então eu vi um anúncio no jornal de que haveria uma apresentação dessas d"As Princesas". Como é de conhecimento geral, a minha filha tem certeza - e eu faço de tudo pra que seja mesmo - de que ela É de fato uma princesa. De uma hora para outra, me render ao "on ice" passou a ser um compromisso inadiável. A minha princesa jamais me perdoaria se eu deixasse de levar ela para ver as suas ídalas - isso por si só, o que piorou bastante quando todas as outras amiguinhas dela também confirmaram que iam às apresentações, eu seria a maior bruxa de toda a história se não desse esse presente pra ela!

Os ingressos foram comprados e escolhidos para a primeira semana de apresentações, num lugar estratégico e mais caro, onde eu tinha certeza de que ela poderia ver tudo direitinho, ainda no mês de julho. O sigilo foi mantido até o início deste mês, porque eu tinha certeza de que se eu contasse que nós íamos ver As Princesas ao vivo e à cores, não teria mais sossego na vida até o dia do show. Dito e feito. Passei as duas últimas semanas ouvindo a pergunta todas as vezes que passávamos pelos cartazes espalhados pela cidade ou que ela conseguia ver o anúncio no jornal.

Nestas duas últimas semanas também, vale dizer, os ânimos andaram exaltados - de ambas - e nós passamos por um período meio punk.

Assim, com um sono super acumulado por noites mal dormidas, pela rotina que anda pesada, debaixo de um sol egípcio, chegou o grande dia.

Eu armei quase um esquema de guerra. Eu bem poderia ter ido de Metrô direto até lá, mas andei lendo no jornal que "aquela" passarela que leva até o Maracanã anda um território de ninguém, então esta primeira alternativa foi descartada imediatamente porque eu não sou mulher de pôr minha filhota em risco para poupar dinheiros - muito pelo contrário, sou mulher de deixar de fazer muitas e muitas coisas pra mim (e isso fui eu pensando na minha sobrancelha que está parecendo uma taturana) para dar o mundo pra ela.

A segunda opção era pegar um ônibus até lá direto, mas eu comecei a desconfiar que ia saltar no ponto errado, que ia ter que ficar rodeando o estádio perdida e submetida aos mesmos perigos da passarela - eu sou uma pessoa sem GPS, é fácil, fácil eu me desorientar.

Então, depois de consultar a mãe, a tia (que ligou prum outro tio, esse sim com GPS), ficou decidido que eu pegaria o ônibus do Metrô até o Metrô para saltar numa das estações da Tijuca e de lá pegaria um taxi até o estádio.

Não foi à toa que eu perguntei à ela: "Pronta pra aventura?".

Ela estava. Sempre está.

E realmente, foi a melhor coisa que eu fiz, esse plano de guerra. Enquanto o taxi rodava o estádio eu não me segurei e soltei "Ah, bem que eu sabia que não ia dar certo eu vir andando até aqui!".



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Como em todo show de grande porte, a banca de souvenires era um espetáculo à parte.

Um tal de varinha que brilha, espada que brilha, negócio que roda (eu não sei bem pra que diabos servia aquilo), bonequinho assim, bonequinho assado... Olívia ficou deslumbrada! Mas a mamãe aqui, que já está dura, só pra dar uma variada, e além disso tinha de fato levado pouca grana, chegou à conclusão de que existem um milhão de brinquedos disponíveis por aqui da franquia milionária para vender e que conseguia achar uns bens mais bonitos e baratos lá no Saara. Ela aceitou numa boa e, para não dizer que ela não ganhou nada, compramos uma pipoca que devia ter sido feita de milho de ouro para que ela pudesse, a partir de agora, ter o seu próprio balde de pipoca (eu tenho o meu do Cirque De Soleil e ela e o Arnaldo dividiam a propriedade do balde do Aragorn até agora); e um merecido souvenir desta tarde memorável - apesar dos preços e do meu bolso furado, toda criança merece um souvenir de um evento memorável como este, por mais chulé que ele possa ser.

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Nossos lugares não poderiam ser mais perfeitos!
As duas fileiras da frente que constavama como esgotadas quando fui comprar nossos ingressos, milagrosamente estavam vazias. Zit. Ninguém na frente. E, se eu tivesse comprado ingressos nelas, provavelmente a nossa visão seria prejudicada - logo, ponto!
Só foi foda chegar à cadeira e descobrir que atrás de mim estavam 4 lindas e minúsculas princesinhas, mas aí morreu o neves porque eu comprei o lugar e não dava pra deixar a minha princesa sozinha (até porque a minha ainda era menor que ela). Morri de culpa o primeiro ato todo (e as mães delas de raiva), mas no segundo elas pularam pra frente e ficamos todas mais felizes.

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E, como até eu tenho medo dessa minha deficiência de GPS, mesmo com a operação certa e cronometrada (esqueci de mencionar que eu cronometrei a operação, né?) de guerra, chegamos cedo a rodo. Pra mim, beleza, garantia de já estar no lugar certo, na hora certa. Eu fico agoniada com horas. Pra ela, uma espera sem fim. Relógio de criança é uma loucura! Esperar cinco minutos por algo que ela queira equivale a esperar umas cinco horas pelo nosso relógio; agora esperar por algo que você queira...
Enfim, após uma loooooooooooooooooooooooooooooooonga espera (no relógio dela; no meu foram só vinte minutos), um locutor avisou alguma coisa.
O início foi impossível de ouvir. A multidão - e olha que não estava lotado, eu olhei, tinham váááááários lugares vazios na parada; o que, aliás, era bem a minha intenção quando comprei ingressos pruma quinta-feira à tarde - berrava alucinadamente, flashes espocavam num balé que ia se repetir ao longo das quase duas horas que passamos lá dentro. Meu queixo caiu. Parecia show de rock. Só me lembrava de ter visto reações parecidas com, sei lá, New Kids On The Block (um ponto negro da minha biografia sobre o qual nós não vamos falar agora)!
A segunda parte eu entendi. Dizia que as pessoas não deveriam tirar fotografias. Muito menos com flashes porque isso poderia distrair os atores e eles poderiam se machucar. Flashes espocavam, lembram? Não deu tempo deu sentir vergonha de ser brasileira ou ficar indignada com a surdez seletiva e falta de educação do estádio inteiro. O show começou.
(E, de fato, o príncipe da Bela Adormecida veio a se esborrachar no meio do espetáculo, sem tirar o sorrisão congelado do rosto, levantando imediatamente. E o segundo aviso sobre "vamos expulsar vocês seus mal educados" não veio, como eu esperava que viesse.).

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E então eu entendi tudo.
Como é de hábito, Olívia permaneceu estática durante todo o espetáculo, com leves excessões para quando aparecia uma bruxa e para quando o príncipe enfiou o sapato no pé da Cinderela, quando ela me olhou, juntou as mãozinhas e soltou um "oooohh" debochado que me fez rir à beça; mas eu, eu parecia uma retardada.
Acabei de me lembrar como eu ri com as reações da minha mãe ao Circo do Solzinho e me envergonhar profundamente, porque, dessa vez, a ridícula fui eu!
Eu ficava lá, "Oóoóolha, miíinha fiíilha!", "Ôôôlííívia, óoóolhaaaaaaa!!!", e cantava as músicas, chorava um pouquinho pelo canto do olho emocionada.
Até bater palma eu bati! Quem conhece, sabe que eu não bato palmas, que eu acho um gesto desnecessário e imbecil. Então. Bati. Alto.

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Nunca vou confessar isso verbalmente ou em voz alta, mas, depois de bater palmas, lá pro final, me deu pena de não ser mal educada e não ter levado a minha câmera.
Não existem fotos desse momento.

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Um mês antes, tinha saído no jornal uma matéria sobre o espetáculo.
Tinha foto, tinha entrevista. Nas entrevistas, os dois bailarinos diziam que o momento mais bonito era quando tudo se transformava no fundo do mar. Eu, quando li a matéria, pensei: "Que bom que eu vou!".
Que bom que eu fui!

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Fora o fato da Ariel e da Aurora parecerem dois travestis, reconheço humildemente que, para patinar no gelo fantasiado de Fera ou como o Gênio da Lâmpada é preciso ser muito macho. A parada é realmente um espetáculo.

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Olívia chegou em casa "apaixonada pelos príncipes", segundo a própria (no que eu não posso discordar; tirando uma ou duas perucas, os moços eram príncipes mesmo), quis ligar pra todo mundo pra contar como tinha sido, dormimos abraçadinhas na minha cama e a paz voltou a reinar no nosso castelo.
Hoje, o encanto dela continua.
Eu fico feliz de poder proporcionar a ela memórias memoráveis; ao mesmo tempo, fico triste por não poder dar o mundo.
Me consola pensar que quem tem o mundo, não tem o que a gente tem.

sexta-feira, setembro 5

Telefonema

E aí a minha mãe me liga...
- Você está lembrando que hoje é aniversário da mamãe?
(Mamãe, no caso é a dela, minha avó, que faleceu há 3 anos).
- Não, mãe, confesso que nem me passou pela cabeça...
- 100 anos...
- E aí, você já deu os parabéns pra ela?

Ante este diálogo, era a única pergunta cabível.
A nossa família tem disso... Mesmo depois de morta, as cinzas da vovó ainda ficaram quase dois anos na sala da casa dela - numa caixinha providencialmente enfeitada com um paninho bordado e um vasinho de flores em cima - e ela continuava participando dos jantares de dia de qualquer coisa que a gente faz...

Manhã de pressa

Deus que me perdoe, mas namorado em casa em dia de semana é de foder.
Não que isso deva ser mal interpretado; eu amo dormir abraçada naquele peito cabeludo, amo acordar com beijinhos, tomar café com a minha “família”; mas, acordar quando o dia ainda nem é dia e você tem horário pra cumprir, e encontrar os despojos da noite anterior pela casa e ter alguém dentro de casa que não tem pn com o seu horário, mata a manhã de qualquer mortal.
Eu ia reclamar especificamente dele, mas cheguei à conclusão de que a problemática que envolve esvaziar um cinzeiro ou guardar as coisas de volta na geladeira ou jogar papéizinhos no lixo, é uma prerrogativa masculina.
Mesmo tendo chegado a essa conclusão, ainda assim, fico enlouquecida de acordar e encontrar o que eu chamo de “rastros” pela casa. Nesse momento, eu começo a bufar. Na etapa em que eu passo a guardar e lavar as coisas, existem fiozinhos de fumaça saindo pelas minhas orelhas – porque, ao invés de estar na pia, eu poderia estar sentada na mesa da sala tomando minha caneca de café em paz e me conectando com o mundo.
Nada é pior do que levantar da cama e cair direto no trabalho de casa.
Nada desperta mais a minha vontade de contratar uma faxineira do que acordar numa situação dessas e pensar que você que vai ter que arranjar tempo no seu final de semana para limpar a bagunça que as outras duas pessoas da sua vida fazem e deixam lá de presente pra você.
E aí ele se levanta. Falta meia hora para você ter que sair de casa – para você poder sair de casa com calma.
“Estamos de mau humor, é?”.
“Não. Tem de ninguém de mau humor aqui, não”.
Claro que essa frase é dita entredentes e meu olhar me denuncia. Infelizmente, eu não sou boa de blefe, de disfarce, de dizer uma coisa quando penso outra porque o meu olhar sempre denuncia e eu não tenho controle sobre isso. Quantas vezes eu já ouvi da minha filha, “mamãe, porque você está me olhando com essa cara de brava?”; ou de outras pessoas, “essa forma que você está me olhando agora”...
Corre, rebola, arruma, “come, minha filha, pelo amor de Deus!”.
Quinze minutos para o limite da sua hora segura.
“Preciso fazer a barba”.
“Não dá tempo!!!”.
“Eu não disse que ia ser agora...”.
E levanta para pegar mais um café.
Dez minutos para a hora limite.
“Vou tomar um banho”.
Ai, Jesus!
“Então vai, que já ta na hora!”.
Eu tento me controlar. Fico olhando para o relógio e quase posso ver o ponteiro dos minutos se mexendo. O mundo já acontece lá fora e eu parada esperando. Eu nem precisava ir agora, mas quero entender melhor como usar um programa que eu já soube usar há muito tempo atrás.
A criança já está vestida, calçada, as mochilas prontas. Ele vem só de calças, botas os sapatos como se ainda faltassem dez minutos para a hora segura e não tivessem passado dez minutos dela.
Eu solto gemidos de “vamos, vamos”, a criança descobre um par de lápis e começa a fingir que toca um reco-reco ao mesmo tempo em que canta animadamente pela sala. Ele bota a camisa. Eu bufo. Ele acende um cigarro, eu ignoro o relógio e abro o jornal enquanto meu pensamento só é capaz de pensar em palavrões cabeludos e eu sinto que o meu rosto está ficando com uma certa coloração avermelhada.
Eu já estou 20 minutos atrasada.
“E aí, vamos?”.
“Vamos, ué! Estou só esperando você!”.
“Eu que estou esperando você! Estou pronto há dez minutos!” – e aí ele pega as palavras cruzadas do jornal.
Tive vontade de chorar.
Eu me jogo na cadeira, solto um gemido e cinco minutos depois, consigo expulsar os dois de casa.
Como a dor não pode ser rápida, eles resolvem andar a um passo que até velhinhas de andador seriam capazes de fazer uma ultrapassagem nada perigosa. Os dois parecem não me notar.
Como não podia deixar de ser, assim que chegamos à Praia de Botafogo, meu ônibus passa. Eu perco. E aí ele resolve engatar uma primeira violenta e vai embora mandando beijos muito satisfeitos.
Esses beijos, melhoram um pouco o meu humor – apesar deu ter certeza absoluta de que ele bem que podia ter ficado um pouco conosco no ponto, já que não tinha pressa de nada no mundo – e, eventualmente outro ônibus chega. Eu chego atrasada.
Manhãs com pressa não combinam com namorados. Namorados combinam com longos cafés da manhã, com pães, café preto, jornal, bagunça calma, beijos, dias de sol; com pressa não combina. Fode a manhã da cidadã.

quinta-feira, agosto 28

Parabéns, Flipper!!!
Agosto foi o mês com número de recorde de postagens no ano e você nem anda escrevendo todos os dias!

Mais uma de amor

E então meu namorado veio pedir para ler as coisas que eu escrevo.
Em dez meses de namoro, além de umas ou outras cartas melosas (porque eu sou adepta de cartas melosas clichê démodé piegas), ele nunca leu os meus outros textos.
Ele me viu sentada aqui escrevendo e quis ler, eu disse que com ele pendurado em mim eu não ia conseguir continuar a escrever. Ele reclamou, ficou bravo mesmo. Me acusou de esconder o jogo e ficou me rodando que nem mariposa em volta da lâmpada pra ver se conseguia ler uma coisinha qualquer (esse já é o terceiro compilado de baboseiras que sai esta noite; coisa rara, mas muito bem vinda).
A verdade é que eu tremi nas bases.
Uma coisa sem explicação razoável.
A única que ocorreu, é que se ele lesse, não gostasse e me dissesse, talvez eu ficasse bloqueada pelos próximos meses, quem sabe até anos – e eu preciso escrever.
Escrever pra mim é vomitar um monte de pensamentos soltos que vão se juntando e crescendo dentro da minha cabeça e que, eventualmente, acabam dando em alguma coisa – uma conclusão, uma descoberta, um relato de nada com nada – que, então, cede um pouco de espaço a novos pensamentos desconexos e me descarrega um pouco do peso que eu carrego de pensar em tanta besteira junta ao mesmo tempo; e pensar muito cansa, exige energia, dedicação, prática, ocupa um espaço terrível dentro do corpo da gente. Por isso que eu fico ruim quando não escrevo, quando perco pensamentos em pensamentos – é energia mal utilizada!
Quando eu escrevo, escrevo pra mim, apesar de quase sempre dialogar com um suposto leitor que se interesse pelo sei lá o quê que eu penso. Constantemente, não gosto do que eu escrevo, e o pouco que eu gosto, reescreveria à exaustão ao longo dos anos se resolvesse de fato me apaixonar e aprimorar esses textos. Tampouco acho que essas minhas egotrips e conclusões pouco lógicas da vida ao meu redor tenham qualquer relevância a quem quer que seja.
Mesmo assim, eu preciso escrever.
É a válvula de escape que eu uso hoje em dia, que já foi o desenho pra mim um dia.
Na verdade, eu acho que se existe alguém que lê isso aqui de fato, esse alguém deve estar com uma séria falta de coisas a fazer na vida. Posso até indicar uns escritores ótimos, uns livros fantásticos, histórias que realmente vão mudar a vida de alguém.
E mesmo essas explicações continuam a me parecer pouco razoáveis.
Eu submeti e submeto professores aos meus textos. Amigos. Parentes. Pessoas até que eu não conheço.
De nenhum deles nunca tive esse pudor literário todo.
Nem medo da crítica deles.
Críticas podem ser construtivas, certo? Ainda que eu mande elas todas às favas.
Aliás, medo é a palavra que menos se aplica – a melhor palavra eu encontrei ali em cima: é pudor.
Pudor, sim. Pudor de mostrar um lado meu que eu não tenho o costume de mostrar às pessoas ao vivo e à cores. Um lado meu mais livre, mais personagem; onde as pessoas lêem uma pessoa, mas não estão olhando pra ela. Vêem uma pessoa, mas não estão me vendo – porque eu sou tímida, apesar do que a maioria acha.
Deixar que ele leia é equivalente a tirar a roupa, mas numa escala muito pior, onde eu vou me sentir embaraçada, vou torcer para ser aceita, para ser satisfatória. É como perder a virgindade de novo, correndo o risco de não gostar da coisa e nunca mais abrir as pernas de novo.
E eu não sei por que esse pudor existe.
Outros homens com quem eu estive envolvida no passado já leram esse bando todo besteira que passa pela minha cabeça. A pior conseqüência foi ter que convencer a todos eles que nem sempre, quando eu me referia à figura masculina ou a um interlocutor ou a um outro personagem qualquer, não era necessariamente com eles (não sei porque, mas todos eles achavam que eu só escrevia sobre eles, como se eu não tivesse mais o que pensar na vida); ou dar alguma satisfação de um texto vomitado em algum momento de mágoa profunda pós-briga – o que era um saco e eu detestava. Ainda assim, eu não tinha pudor.
Talvez eu não queira que acabe o mistério.
Sem mistério, o interesse diminui, o encanto se perde.
Eu deixo de ser um ser mítico – ou, pelo menos, essa minha parte deixa de ser.
Ele já me viu pelada, doente, chorando com meleca no nariz, gozando (não tem gente que diz que se conhece realmente uma mulher pela cara que ela faz nessa hora?), furiosa no meu nível mais atômico, feliz de explodir. Já dorme comigo e encara a coisa mais pouco glamourosa do mundo que é a minha cara de manhã, com mau hálito, cabelos desgrenhados e remela nos olhos. A gente troca fluidos, pelo amor de Deus!

Com ele, eu não sei explicar muita coisa.
Essa é mais uma delas.

(De repente, eu me lembrei daquelas mulheres que apareciam nos desenhos do Pica-pau, que eram todas lindas e usavam sempre um véu no rosto, que quando ele tirava mostrava que elas tinham os piores rostos do universo. Minha professora de Teoria da Comunicação ia ficar orgulhosa se soubesse disso!).

Por isso que dá errado...

Olha, eu juro que quando eu escrevi que estava me tornando um Mestre Zen, eu realmente me sentia como um. Infelizmente, o Universo resolveu que eu não vou ter esse privilégio.

Eu não agüento estudantes de 18 anos que não entendem a noção de respeito a um professor. Não agüento que eu perca pedaços importantes, interessantes e necessários para o meu funcionamento de vida, na vida, fazendo trabalhos de faculdade, quando eles não perdem. Não agüento ter que explicar as coisas 20 vezes pra ninguém.
Não agüento gente burra. Não agüento aquele bando de gente que anda na rua, pega ônibus, anda de metrô, enfim, vive no mesmo planeta que eu e não tem a mínima noção de educação. Não agüento aquele bando de gente que vive no mesmo planeta que eu e que nunca pensa como agiria se fosse com eles, com as mães deles, as esposas deles as faltas que eles cometem com as outras pessoas.
Não agüento com as pessoas que têm boca pra falar, mas são virtualmente incapazes de pronunciar palavras tão bacanas como “obrigada”, “por favor” e “com licença”.

Eu tento.
De verdade.
Até não carrego mais o bloquinho que tinha na bolsa para escrever reclamações de civilidade aos outros.
Conto até dez.
Tento achar lindos os passarinhos.
Cantar musiquinhas.
Levar em consideração todas as reportagens e tudo aquilo que eu ouvi sobre o poder do bom humor sobre as pessoas.
Me convencer de que essa coisa de monstro é da idade e, que, um dia, eu vou poder voltar a dormir feliz e contente.
Até de sol eu passei a gostar agora que comprei um par de óculos escuros!

Mas aí, sempre vem alguém e faz uma dessas coisas.

Mãe de mim mesma

Hoje eu virei a minha mãe.
Tomou um susto?
Eu também.

Para quem já tinha tido uma epifania esse mês, ter outra logo em seguida é foda.

Aconteceu quando eu estava entrando em casa.
Com a graça de Deus e mais uma ajuda extra, minha cupincha de faculdade me ofereceu carona pra casa duas vezes por semana. A carona é muito mais que bem vinda uma vez que voltar pra casa no final do dia, carregando duas mochilas e uma criança tão cansada quanto eu pra casa, num trânsito caótico e na alegre companhia das pessoas tão bem educadas que andam e dirigem os ônibus da cidade é matador; fora que ela é minha melhor amiga lá dentro e é sempre uma delícia poder voltar conversando mais com ela.
Sendo assim, cumpri eu o meu ritual de saída frenética da faculdade e fui buscar a minha filha bufando e correndo para, enfim, na volta pegar a carona. Assim como eu ando exausta e meu ritmo de vida frenético, o ritmo da pequena também anda, então logo que chegamos ao carro, ela resolveu tirar um cochilo durante a viagem. Nós viemos batendo um papo super animado, debatendo questões...políticas!
Quando eu desci do carro, veio.
Me lembrei da minha infância, onde os adultos – em especial a minha mãe – conversavam muito sobre política. Me lembrei de como eu achava aquilo um saco. Eu não entendia nada e não conseguia participar da conversa – muitas vezes, era até preterida da conversa. Sempre existia um “É? Que legal! Agora fica quietinha, filhinha, que a mamãe ta conversando com a tia...”.
Eu cresci e continuei a achar política uma coisa muito chata. Resolvi entender pouco do assunto (Freud explica) e tirando uma queda pelos vermelhinhos quando era adolescente (Tão passionais! Tão bobos! Tão bonitinhos!) e saber de cor os direitos do cidadão e consumidor, sustentei por muitos e muitos anos (até agora, para ser mais precisa) a bandeira dos apolíticos.
E então eu vi a minha filha no banco de trás do carro, com um olhar que suplantava o tédio, que de vez em quando tentava se meter na conversa para ouvir um “É? Que legal! Agora fica quietinha, filhinha, que a mamãe ta conversando com a tia Madê, ta?” e que, admitindo a derrota, resolveu dormir todas as vezes em que entra no carro junto com aquelas duas adultas chatas que falam sem parar sobre assuntos que ela não entende.
Me vi, de novo, fechando a porta do carro e terminando um ponto de vista sobre ditadura e afins – que anda tão em voga.
Aí, eu vi a minha mãe.

A pior parte é que a gente realmente não fica igual às mães da gente. A pior parte é que bate uma sensação terrível de que você é uma espécie de edição revista e ampliada – o que, no seu caso, quer dizer alguns adendos e um bocado de erros.

Até agora, eu ainda não resolvi se fico chocada ou orgulhosa porque realmente virei uma pessoa adulta, maçante, responsável, que gosta de ouvir música baixinho, tem cabelos brancos, cuida de plantinhas...

...Tem tempo já que a minha visão de futuro é uma casa no meio do mato, bailinhos de bolero no clube, aprender a fazer tricô, pintar os cabelos que me restarem de violeta e ter um bom par de chinelinhos com estampa de oncinha e pompons em cima.
Isso são sinais, não são?

(Só para que fique claro, minha mãe tem cabelos vermelhos, não vai a bailinhos, não faz tricô, não gosta de oncinha, ouve música alto, me acha uma cafona e usa roupas bem moderninhas, ou seja, dentro em breve, eu também serei a mãe dela – e duvido que essa constatação seja no bom sentido.)

segunda-feira, agosto 25

Epifania do Mês

Voltar às aulas tem aquilo, horário que muda e faz você ter que se reorganizar de uma forma quase que enlouquecedora e se transmutar numa mulher que corre todo dia o dia todo de cima pra baixo e de baixo pra cima e que não tem mais tempo de limpar a casa naquele nível psicótico que sempre te deixa feliz e a casa cheirando a qual for a fragrância mágica da vez e ter que aprender a fazer almoço todo dia, o que leva você a ter que ter coisas de almoço em casa todos os dias, o que leva você a ter que lavar uma cacetada de louça todos os dias – fora ficar com o coração absolutamente apertado de chegar no colégio e a sua filha ser uma das últimas a sair do estabelecimento.
Mas também tem rever os amigos queridos e pôr o cérebro pra trabalhar em algo mais edificante que plantio de marias-sem-vergonha. Ficar afogada em textos e trabalhos e monumentalmente amolada porque já está já lendo o mesmo livro (e não importa se o tal livro tem mais de mil páginas) há mais de duas semanas.
O momento máximo da minha volta às aulas neste semestre foi passar de novo por uma atividade que todos os professores praticam e que eu acho que devia ser proibido por lei, mas, que como eu já fiz à exaustão, se a gente levar em conta todos os meus anos de má e boa estudante, até que eu ando me aprimorando e achando muito divertido: o quem sou da primeira aula.
Na boa, perguntar prum cara que está entrando ou está no meio de uma faculdade quem ele é pode terminar em internação. Enquanto está dentro da faculdade e sem estágio e sem saber direito em que ele pensa que vai se especializar é maldade. O cara pode ter uma crise. Fora que, poxa, quem sou eu?
Sei lá quem sou eu! Já fiz anos e anos de análise guiada e auto-induzida tentando descobrir. Estou cá com uns livros que prometem me explicar o Big Bang, as moléculas; já sei que não vim duma cegonha ou de um pé de alface, mas com 15 anos eu era uma pessoa, com 20 outra, hoje, com 31, sou outra, entende?
Como esses caras iam se sentir se eu olhasse nos olhos dele e perguntasse “Quem é você?”. “Não, amigo. Quem É você? Qual a sua meta de vida? Porque você escolheu dar aulas aqui se você é tão maravilhoso assim?”. Aposto que ia ter suicídio coletivo ou licença médica por tempo indeterminado. Provavelmente eu ia criar uma nova geração de Profetas Gentileza.
Mas, enfim, mais uma vez, essa seção teve seu lugar na volta às aulas.
E eu fiquei muito feliz porque dessa vez eu assumi, descobri o que eu realmente quero na vida. Não que eu ache que isso vai acontecer mesmo. É mais provável que eu ganhe na Mega Sena do que consiga realizar isso, mas...
Dentre o meu conjunto de manias habituais (eu preciso ter umas 4 ou 5 ativas para sobreviver feliz), novamente estou com aquele ataque de que eu preciso ler, preciso ler e preciso ler mais. Que existem muitos livros, muitos mesmo. A minha lista de livros a comprar só faz aumentar – coisa de 9 ou 10 novos desejos toda semana. Eu brinco que eu e a Olívia ultimamente estamos brincando de cobiçar. Ela cobiça ter todos os brinquedos das Lojas Americanas, eu cobiço ter todos os livros do Mundo (ta bom, todos não porque eu não acho que vá ler várias coisas do tipo “Neuroanatomia funcional” ou “Gossip Girl” ou...). É saudável, ainda que bastante pecaminoso.
Assim, eu descobri que o emprego dos meus sonhos seria que alguém de fato resolvesse me pagar para que eu lesse coisas. Que ia ser uma maravilha muito maravilhosa ser paga para ler livros ao invés de só gastar dinheiro com eles!
Porque, apesar de existirem alguns livros na minha casa que eu mesma ainda não li, de existirem centenas na casa da minha mãe que eu ainda não li, de estar tentando terminar o tratado nipônico e já ter mais uns três livros que eu preciso ler para a faculdade na fila esperando, ainda assim, hoje encomendei mais 4 livros.
Estou morta de felicidades! Mal posso esperar pela caixa chegando aqui em casa e eu pegando neles e sentindo o cheiro de novo deles! Livro novo é uma coisa tão, tão linda! Vai ser uma espera deveras dolorosa e lá se vão mais vários dinheiros e eu tenho certeza de que, quando eles chegarem, já vão existir mais vários outros livros na lista tomando o lugar deles. Por um lado, respiro aliviada porque existe leitura para vários meses – inclusive aqueles em que eu não vou poder comprar nenhum livro; se bem que ultimamente eu ando deixando de fazer algumas coisas para poder comprar pelo menos um todo mês.
Mas não ia ser genial? Me pagam para ler um livro (que pode até ser uma bomba, eu não ligo; uma pessoa com o meu passado de leitura não morre infeliz com nada na vida) e eu ainda ganho o suficiente para comprar mais livros legais! Não é genial?
Agora que eu descobri isso, vou rezar todas as noites pra que aconteça.
Enquanto isso, vou convivendo com essa doença tão angustiante e maravilhosa que é gostar tanto de livros.

O Gato


Tô apaixonada pelo Yoda - sim, ele que é o gato de 4 orelhas a que eu me referi no post anterior.
Até lancei campanha: se alguém achar outro com 4 orelhas, eu adoto e ainda chamo de Yoda também. Hehe

E então, fim de semana...

Ando às voltas com vários textos e trabalhos de filosofia, então eu estava aqui pensando – como todo mundo sabe, eu penso muito; penso tanto que até esqueço de coisas que pensei e achei que faria alguma diferença no meu mundo escrever – e me toquei que eu tenho dois amigos filósofos, o que por si só já é um feito e tanto, convenhamos.
Quantos amigos filósofos você tem? Com doutorado e o caralho? Que são, assim, amigos do coração? Que valem horas de papo em qualquer birosca podre de beira de estrada? Então, é um feito que eu tenha logo dois.
E percebi que ambos os dois (ai, é feio, mas eu adoro!) foram morar fora do Rio, em cidades escondidas no Centro-Oeste do país, contratados por faculdades dessas cidades escondidas. No caso de um deles, a escolha foi feita simplesmente porque ele não conseguia vaga em nenhuma faculdade pública do Rio.
Aí me veio uma idéia muito doida na cabeça de que o centro-oeste está de complô contra o pessoal do Sudeste levando embora os filósofos todos para que a gente nunca aprenda a pensar sozinho em várias coisas super importantes, continuemos a ser governados por pessoas com apelidos vexatórios e afundemos-nos em merda e eles possam passar a ser as verdadeiras metrópoles do país.
Assim, eu saco muito pouco ou quase nada de política. Eu só fui saber que estamos tendo campanha para prefeito essa semana e ainda assim porque fui obrigada. Eu sabia que tinha campanha, sabia quem eram os candidatos, mas é um assunto que eu acho tão chato (e nessa parte eu aceito todo o mea culpa que me cabe) que me é muito mais divertido saber que existe um gato de 4 orelhas chamado Yoda morando nos Estados Unidos. Só não morro de culpa porque os caras em quem eu voto nunca vencem (a exceção do nosso senhor presidente da república, que só me dá alegrias – isso foi uma ironia – e talvez seja o grande culpado deu não querer mais saber pra que raio de cargo o próximo fazedor de besteiras concorre) e porque eu sei bem dos meus direitos mesmo que eles me sejam garantidos, na maior parte das vezes.
Mas, assim, é muita viagem da minha da minha parte supor que existe um complô para emburrecer geral além da salvação ou é só porque eu sinto muita falta deles?


Eu queria escrever mais.
Dizem lá meus ídolos... Ai, pára! Ídolo é demais...
...As pessoas a quem eu admiro, que a gente deve escrever um pouco todos os dias. Sobre qualquer assunto. O gato da vizinha, a filha que canta atirei o pau no gato enquanto vai ao banheiro – ou seja, as coisas que eu faço mesmo.
Agora, essas pessoas que eu admiro só não me disseram até hoje como é que a gente pode escrever todos os dias se tem que dormir, arrumar a casa, estudar, cuidar de filho, terminar de ler “Xogum” e outros milhões de afazeres de mundanos (além de manter a beleza da cútis) e fazer sobrar tempo para conseguir sentar e escrever, ainda por cima!
De novo, cá estou eu brigando com o tempo, naquela minha fase que eu acho que ele é um canalha e que eu precisava de um dia bem maior pra poder dar conta de tanta coisa junta, junta.


Além dos meus trabalhos, quando me sobra um tempo, tenho tentado escrever a alguns amigos que estão longe de mim. Hoje em dia, infelizmente pra mim e felizmente pra eles, são vários. Então, hoje saiu isso – é só um pedaço do e-mail mais comprido que escrevi nos últimos meses...

“Felicidade pra mim é isso; meus amigos perto, bem, aparecendo de vez em quando; minha família numa boa; meus livros lindos e cheios de histórias bacanas; meus textos que eu nunca gosto e que nascem sozinhos; fazer almoços longos aos domingos de novo; o sorriso da minha filha – que é, de longe, uma das crianças mais felizes e bacanas que eu conheço.
Enquanto eu escrevo esse e-mail super longo para mandar segunda-feira, é sábado de madrugada, a cidade lá fora ferve, coisas acontecem, pessoas se conhecem e se beijam e nada mais disso me incomoda. Num quarto, minha filha dorme, no seu quarto todo cor-de-rosa, como ela escolheu, afogada no meio de um monte de brinquedos; na sala, Arnaldo está vendo o último jogo de vôlei das Olimpíadas e eu, no quarto de hóspedes, posso dizer que hoje eu estou feliz e preciso comprar beterrabas. :)”

Por mais surpreendente e demagogo que possa parecer, eu realmente não sinto mais aquele comichão do sábado à noite, aquela sensação de que existe algo sendo perdido. Um dos meus amigos filósofos bem disse hoje que eu pareço estar satisfeita. Satisfeita não é bem a palavra; neste momento de epifânia eu gostaria de declarar que estou me sentindo quase que um Mestre Zen.


Sim, Mestres Zen têm que encarar longos caminhos para chegar ao caminho da iluminação. Esta semana tive vários embates com a minha quase adolescente de apenas 3 anos, envolvendo legumes e bichos-papão. Como me é peculiar passei pela conversa, pela gritaria, cheguei no choro e saí com a sensação de ter sido atropelada por um trem. Me consola ter uma mãe psicanalista que me diz que essas coisas são normais e que passam quando a minha filha fizer uns 45 anos. Não é nenhum Paulo Coelho, a D. Maïsa, mas bem que quebra um galho. Hoje, o dia foi só de alegria e amor!


Talvez eu mude o meu nome pra Yoda.

Aprender a falar como ele eu já sei e essa semana aprendi sofismas. Talvez eu comece a trocar as minhas redundâncias por eles.

- O cão late.
- O cão (constelação) é uma estrela.
- Logo, a estrela late.

Genial.

Registro

Ponto Alto Das Minhas Férias:

...Cheirei até o cangote...

Minhas Férias (Escrito quase no fim delas, há mais de um mês atrás)

As pessoas me lançam olhares de inveja – dentre outras coisas – cada vez que eu digo que estou de férias.
Bom; eu tenho mais uma Verdade Absoluta para revelar: 85% do tempo não existe nada digno da inveja – dentre outras coisas – por parte das outras pessoas.
Minha fabulosa e amada rotina continua basicamente a mesma. Eu acordo, ou sou acordada; providencio a tão conhecida e mais importante refeição do dia, o café da manhã; leio o jornal, ou apenas passo o olho pelas manchetes conforme a relevância das mesmas para a minha vida e sabedoria latente ou meu estado de humor diário, que anda sendo bastante volúvel nas últimas semanas; boto a criança no banho, entro no banho, arrumo a criança, me arrumo, levo a criança pro colégio, volto pra casa; me vejo afogada entre roupas a lavar, casa para limpar, uma luta que já dura bem uns dois meses com a roupa para passar que parece crescer e tomar conta do quarto de hóspedes por mais que eu ande me esforçando um pouco que seja para dar conta dela, a louça para lavar que faz a gentileza de crescer de tamanho mesmo que eu insista em só me alimentar de “coisas em pacote”; depois eu busco a criança no colégio, venho pra casa, faço o jantar – quando faço – para encarar mais um capítulo da novela “é hora de dormir” e caio dentro do livro da vez; o que me lembra que meus olhos não andam lá grandes coisas. Os cabelos estão cada vez mais cabelos brancos; as unhas não sabem o que é uma profissional balizada há Deus sabe lá quanto tempo, as sobrancelhas só hoje foram receber um alôu da pinça. Fora o fato de que só a nomenclatura “férias” engorda.
Na maior parte do tempo eu continuo bastante cansada e cada vez mais sem o glamour que outrora me pertencia.
Ou seja, nada que seja digno de olhares enviesados.

Mesmo assim, uma ou outra coisa é capaz de me tirar da rotina e fazer destes dias, dias de férias.

Como quando eu cheguei de viagem, por exemplo.
(E paciência porque eu vou passar pela viagem em algum momento.)
Desde a minha chegada venho tentado me dar alguns momentos de relaxamento – coisa bastante difícil para uma pessoa tensa e ansiosa, ainda que em férias. Então, resolvi, logo no primeiro dia, que iria levar a criança ao colégio (O colégio dela não tem férias de meio de ano. Como mãe o primeiro impulso é achar uma maravilha e pensar no tanto que eu ia conseguir descansar, mas a prática não é bem assim. De qualquer forma, ainda é bem melhor do que deixar a bichinha em casa todos os dias e ficar quebrando a cabeça pensando em atividades ou gastar tubos de dinheiro com programas supostamente divertidos ou ficar me roendo de culpa por não ser tão criativa nem tão rica.) e depois aproveitar o sol que havia resolvido dar o ar da sua graça e dar um mergulho na praia. Fazer reverências, fotossíntese, sentir a energia, aquela areia toda podre no meio dos dedos dos pés e todas as outras dobrinhas que eu raramente sei que tenho pelo o corpo e todo esse papo hippie todo.
Assim sendo, lá fui eu, com a minha sacolinha plástica de praxe. Nadei pra cá, nadei pra lá... Achando ótimo ter a sacolinha que acabou me servindo de bóia em algumas ocasiões, tentando não pensar que bem que podia aparecer um tubarão com uma bocarra imensa aberta numa daquelas ondas sem que tivesse ninguém por perto pra me acudir, achando ótimo ficar à deriva... E então, uma hora eu cansei de brincar de náufraga e resolvi sair da água e me mandar, quando olhei em volta e percebi que tinha uma multidão parada na beira d’água e, virando de costas para ver o que era tão magnífico, tinha lá um pingüim. Amarradão. Totalmente banhista. Nada parecido com os do zoológico ou aqueles que a gente lê no jornal que chegaram exaustos e feridos e semimortos. Ele nadava, botava a cabeça pro lado de fora, espiava em volta, parecia que dava uma conversada com as pessoas atônitas que estava ainda dentro d’água e nadava de novo, repetindo o processo por algum tempo. Depois eu acho que ele encheu o saco e se mandou.
Eu também enchi o saco e me mandei.
Mas naquela tarde eu vi um pingüim na praia.
E isso não é uma coisa que eu vejo todos os dias.

Eu tinha algumas “resoluções de férias”.
Sabe, que nem quando a gente faz aniversário ou chega o ano novo que a gente faz uma lista com coisas e diz que vai fazer aquilo ou não vai mais fazer isto. A lista de férias é quase igual, com a diferença de que é uma compilação das coisas que a gente quer fazer nas férias porque no resto do ano não sobra tempo. A minha lista nem era uma coisa tão enorme assim, já que antes das férias meu único desejo vigente era poder dormir um pouco. Tudo bem que eu ainda não consegui dormir as 48 horas seguidas que sonhava, mas até que eu ando sonhando um bocado.
Enfim, a lista.
Além de modesta, muito lentamente eu ando conseguindo dar conta dela.
E foi assim que externei meu desejo de plantar umas flores nas minhas janelas. Externando este desejo, acabei ganhando duas mudas de presente, além de duas jardineiras. E, assim, toda e qualquer desculpa para não plantar as flores foi por água abaixo.

É que eu sempre achei que me faltava aquilo que as pessoas precisam ter para ter plantas em casa. Não basta sol e água. Tem que ter “mão” e eu nunca tive antes.
A minha glória – até agora – é um vaso de violeta que eu ganhei de uma das minhas melhores amigas logo no dia em que peguei as chaves de casa. Essa violeta sobreviveu à sinteco, pintura, poeira, mudança e, até agora, à mim.
Dos meus seis vasos de tempero, só três cismam em sobreviver – e ainda assim com um galhinho mais guerreiro em cada vaso. Nada que dê para fazer uma caçarola.

Mas aqui perto de casa tem uma casa (casa mesmo) que tem nas janelas duas jardineiras super floridas de maria-sem-vergonha. Eu sou uma admiradora de flores simples. Meu barato é a florzinha branca que nego bota de enfeite em buquê e que os floristas nem vendem avulso de tão renegada que ela é enquanto flor. E maria-sem-vergonha. Eu me lembro da minha felicidade quando era criança em ir a um jardim perto de casa e ficar catando aqueles casulinhos de sementes que elas têm para apertar! Nos últimos meses eu comecei a sentir uma inveja de doer das jardineiras naquelas janelas.
São lindas e eu queria pra mim também. Enfeitando as minhas janelas!
Minha confiança na empreitada aumentou quando me disseram o porquê do nome da florzinha com olhares que me garantiam que até uma retardada folial como eu poderia ter sucesso no plantio da mesma.

No dia seguinte ao meu aniversário (que foi quando eu ganhei as mudas), vim toda feliz contente e carregada pelas ruas trazendo nos braços as duas e pesadas jardineiras.
No dia seguinte, lá fui eu ao bazar aqui do lado para fazer a feliz compra da terra. Como havia sido instruída comprei dois tipos de terra, pedras para pôr no fundo do vaso e um adubo que eu achei simpático, além de poder ser uma bela ajuda. Segui todas as instruções que minha tia, minha mãe, o florista e o rapaz do bazar me passaram e plantei as mudas.
Na hora, fiquei com o desejo de que a vida fosse que nem desenho animado, onde a gente planta as coisas e elas imediatamente começam a dar flores e cantar e sorrir de felicidade. Mas, me convenci de que essas coisas levam tempo e de que eu precisava ter alguma paciência na vida.
Para meu espanto, ontem de manhã, a maria-sem-vergonha já tinha aberto uma flor. Hoje, mais duas.

A outra jardineira recebeu uma muda de beijo, uma parenta mais chique da m-s-v. Hoje de manhã ela estava deprimida, com os galhos baixos... Eu já estava achando que essa aí não ia dar em nada, que o lance era encher as janelas de m-s-v mesmo e me dar por feliz. Mas aí eu fui lá, falei pra ela que o lugar dela era destaque na casa, que ela era a estrela da minha janela e não podia ficar triste daquele jeito. Fiz um carinho. Totalmente retardada mental.
No fim da tarde eu fui lá ver ela de novo. Estou me sentindo de novo mãe de recém-nascido, que a gente fica olhando de dez em dez minutos pra ver se está respirando. Não é que as folhas deprimidas e os galhos baixos dela estavam de pé?!?
Fiquei embevecida com a natureza!
A natureza dos meus vãos, vá lá, mas ainda assim a natureza.
Foi imbecilizante e fantástico ver aquela planta toda em pé no fim do dia só porque levou um papo...!
Fiz a dancinha da felicidade e estou toda orgulhosa da minha casa ganhando forma, enfeite e cor.

Talvez pensando secretamente que nem tudo que a gente acha que não tem jeito é realmente tão sem jeito assim.

Okay.
Passaram-se dois dias desde que eu escrevi a parte de cima.
Retiro o que disse. O Beijo da minha janela não passa de uma planta chantagista e vil. Passei um dia inteiro fora de casa e hoje já estava ela deprimida novamente. Minha consultoria em jardins e afins levantou a hipótese de que ela seja o tipo de planta que precisa ser regada diariamente e por isso a depressão.
Há mais de um mês considero a hipótese de me livrar da saudade que assola o peito, me render e adotar um novo bicho de estimação nesta casa. O que me impedia era a sensação de que já tinha coisas e pessoas demais para cuidar, que um pouco de liberdade não faria mal a ninguém. Aí me arranjam o Beijo. Maldito Beijo deprimido que exige regadas diárias e conversas estimulantes! Se eu quisesse estimular alguém diariamente certamente teria escolhido outra profissão! Ai dessa planta se ela não crescer e ficar exuberante!

As Maria-Sem-Vergonha, sim, são meu orgulho e já florescem na minha janela.

Que nem nos desenhos animados.

Pela primeira vez desde que eu entrei de férias e tenho sido refém de todo o trabalho braçal das alegrias do lar, fico feliz em anunciar que não existem roupas na fila da máquina de lavar.
Pelo menos até amanhã.

E já há algum tempo, meu namorado perguntou qual era a cor do meu cabelo.
Não aquela que eu desfilo, mudo e as pessoas vêem na rua, mas a cor de cabelo que Deus me deu e que eu saí da barriga carregando comigo.
“Castanho”.
“Claro, escuro? Que tom de castanho?”.
Me fugiu.
Não lembro mais. Mais pro claro? Não sei.
“Então porque você não deixa de um pintar um tempo pra gente descobrir?”
“Porque vai ficar cheio de cabelos brancos. Eu não agüento os meus cabelos brancos.”
“Bobagem... Aposto que vai ficar lindo...”

Eu ainda não decidi se ele quer que eu fique mais bagulha do que eu já sou pra que outros homens não fiquem espichando o olho e tentem me comer e tal; se ele tem uma queda pelo lado bizarro da vida; ou se ele realmente não se importa e gosta de mim como eu realmente sou. Normalmente eu apostaria na alternativa “A”, mas juro que não sei o que pensar dessa vez.

De qualquer forma, resolvi tentar.
Assim como não me lembro o tom, não me lembro quando foi a última vez que encarnei a cabeleireira em mim e fiz aquela lambança de lama preta no meu banheiro.
Também não desisti daquela história de deixar os cabelos crescerem até os pés e serem meus amigos de fé e irmãos camaradas eternos.
Passei pelo dia dos 31 anos – um dia muito sem propósito, aliás – ostentando orgulhosamente 4 dedos de fios brancos e um tom de marrom nos cabelos que obviamente ainda não era o marrom virgem que eu esperava que fosse surgir. Meus amigos, muito educados e polidos, não deram um pio a respeito. Todos eles, ao longo dos últimos meses.
E então eu parei na frente do espelho.
Sou a primeira pessoa a dizer que bem orgulho dos peitos caídos e todas as mudanças todas que a idade trouxe pro meu corpo, mas sou um ser incapaz de superar a barreira dos cabelos brancos.
Nada me abala tanto.
Nem a monocelha, nem unhas desfeitas, nem pernas cabeludas, nem peitos caídos ou coxas moles. Cabelos brancos são a única coisa que eu ainda não consigo encarar, adquirir e viver em paz com. Com eles, meu ar, ar mesmo, fica mais lento, mais descuidado, mais pesado. Eu não sou pesada e descuidada – ainda que um pouco lenta mesmo.
Quanto mais tempo eu passei na frente do espelho esses últimos dias, mais apática fui ficando quando olhava e passava os dedos por aquelas cintilantes raízes brancas. Muito eu lutei. Queria não ligar.
Mas liguei.
Liguei, levantei da cama, passei na primeira farmácia que encontrei, comprei e mandei ver.
E, realmente, é impressionante o poder que existe num cabelo de cor uniforme! Passar o pente para dividir um cabelo que é todo preto feito as asas da graúna é quase tão orgástico quanto o próprio orgasmo em si. É completamente diferente de passar o pente pelas madeixas da sua avó (que Deus a tenha).
Não lembro do tom de castanho.
Não sou capaz de ser tão (escolha a sua palavra aí).




E após cinco meses de mudança, ainda existem umas três caixas estrategicamente malocadas pela casa, mas a adaptação não poderia ser mais perfeita!
Eu, que desde muito antes da minha filha sonhar em ser minha filha, reclamava que precisava mudar de ares, que morei a vida toda no mesmo prédio e na mesma rua e nunca tive um número tão abundante de vizinhos, estou perfeitamente adaptada.
Tudo bem, falta conhecer mais uns bares, provar alguns restaurantes novos e me enfurnar nas galerias sinistras; mas pela primeira vez, presenciei coisas nunca dante vistas. Hoje, quando saía para buscar a criança no colégio, quase vi uma batida entre um ônibus escolar e um cidadão que dirigia um pusta carrão achando que estava em um rali bem na minha frente! Teve cantada de pneu, sinal avançado e, por pouco, não voa vidro em cima de mim.
Não que eu nunca tenha visto uma batida antes; até fui coadjuvante em umas duas ou três, mas, como espectadora in live action foi a primeira vez.

Outro dia também, estava saindo, indo pro meu ponto de ônibus habitual (sim, eu já tenho um ponto de ônibus habitual) quando uma pessoa de bicicleta passou e levou o celular da orelha de uma moça – que, coitada, tentou correr atrás e chamar um guarda, mas, como a gente bem sabe, cabine de polícia no Rio é enfeite.
Eu já tinha ouvido falar, tenho uma amiga com quem aconteceu isso, meu pai passou por isso, mas em live action...

Eu já descobri que sexta-feira é dia do lixo.
Não lixo saquinho de lixeira de pia, mas lixo, lixo mesmo, daqueles responsa. Então, sexta-feira à noite, toda aquela população de rua toda sai de onde quer que eles se escondem - não que não tenha população de rua, tem; mas são poucos e morando por aqui a gente conhece todos eles, desde o velho esfarrapado que xinga todo mundo, ao outro velho que não tem o menor pudor de se aliviar no meio da rua no meio do dia – e a praia de Botafogo, que já é um lugar bastante movimentado ganha novas cores.

Notem bem que isso não é de forma alguma uma reclamação ou a pintura de um retrato feio, sou eu maravilhada com esse Novo Mundo!

Além disso, tem o pessoal do bazar que sempre morre de rir quando eu entro lá pra comprar alguma coisa, visto que eu sempre desempenho o papel de mulher atolada querendo se meter em alguma presepada quando isso acontece; a vagabunda da chinesa que eu sinto ganas de embolachar porque deu uma cantada no meu namorado; as caixas do mercadinho que riem de se acabar com a Olívia; as vizinhas que me param na rua para fofocar...
Um Mundo Novo!
To maravilhada!

Nesse meio tempo, eu tento ser uma mãe exemplar.
Claro que eu sou cheia de falhas e quebro minhas próprias determinações, mas uma delas é não ficar dando presentes sem parar para a Olívia, que eu costumo seguir direitinho, tirando um brinde de Mcdonald’s aqui e ali (quebra-cabeças e livros são liberados com uma certa parcimônia, tendo em vista o futuro intelectual da menina, assim como tintas, pincéis, lápis, papel, e tudo o mais que possa dar um empurrãozinho). Assim sendo, eu só quebro a regra do “pede de aniversário” quando ela passa uns bons 4 meses de olho num brinquedo específico – porque aí eu vejo que ela está realmente afins da parada e tento fazer um esforço para comprar pra ela; e ela, por sua vez, sabendo disso, exerce seu direito de desejar as coisas com todos os requintes. A novidade das férias é que quase todos os dias eu sou convencida a dar uma volta nas Lojas Americanas para olhar os brinquedos. Esse programa virou a saída para qualquer momento de tédio que eu possa vir a ter com ela pelos próximos anos, acredito.
Ela entra, olha, olha, olha, deseja, deseja, deseja e depois nós damos a volta e vamos embora.

Outra coisa que virou tradição diária dela, é sair do colégio, passar numa kone store que tem no meio do caminho, entrar lá dentro e dar umas reboladas ao som do que quer que esteja tocando na hora. Naturalmente, depois, viramos as costas e vamos embora.

Agora, imagina que vida fantástica não seria a nossa se bastasse desejar as coisas e rebolar em qualquer lugar, hein?

Um dos itens da minha lista de coisas a fazer nas férias era me permitir perder algumas horas de vida jogando joguinhos de computador sem ter que me preocupar em acordar de manhã cedo e cair na pauleira.
Até agora, um item esquecido e renegado.
Então, quando eu resolvi me dar este prazer, pegando emprestado um jogo novo com o meu namorado, empaquei logo no primeiro nível da parada, já morri umas 10 vezes de porrada e estou morta de ódio do jogo. Por outro lado, se adolescentes com menos da metade da minha idade (ai) conseguem matar a porcaria do monstro, sinto-me moralmente obrigada a conseguir também, mesmo que signifique o sacrifício de horas de filmes que eu poderia estar vendo ou livros que eu poderia estar lendo.
Nem que seja para desistir depois.

Por falar em livros que eu poderia estar lendo, já saquei que a minha meta de leitura para as férias não vai ser alcançada.
Baseado no princípio de que não estou nadando em grana e que existem um monte de livros que a família possui que eu ainda não li, tomei coragem (depois de visitar uma exposição sobre o Japão, claro) e peguei os dois volumes de “Xogum” na casa da minha mãe. Não sei que houve...
Só sei que eu já li uns 3 livros nesse meio de caminho, antes de pegar o próprio, e acabei de pegar mais um que eu devo terminar até o fim da semana. Eu tenho tesão por livro novo, sabe? De qualquer forma, algo me diz que duas semanas vão ser muito pouco tempo para que eu me orientalize e leia os dois volumes. Tenho duas opiniões (dadas de grátis por terceiros bem intencionados, se é que isso existe): a de que eu vou amar e a de que estou tentando cometer um haraquiri.
Pressinto uma coisa meio Dostoievski no ar...

E, para encerrar só este post, devo declarar que terei cortinas tapando o sol que bate na minha bela carinha todos os dias de manhã arruinando várias vezes as perspectivas de um dia feliz e uma dormida daquelas que vão além das 9 da manhã!

terça-feira, agosto 19

Para não dizer que não falei das férias...

...Fui à FLIP, tenho cortinas no quarto e penso todos os dias em não me levantar mais da cama, li alguns livros, vi alguns filmes, briguei com o namorado, fiz as pazes com o namorado, não escrevi muito, arrumei a casa menos do que deveria, vi alguns amigos, fiz 31 anos, plantei plantas que ainda vivem, pintei um quadro, me aborreci bastante, ri um pouco, andei, andei, andei e escrevi um longo texto já defasado que eu vou postar ainda essa semana só pra ele não se sentir mal amado.
Mas o resumo foi isso aí.
Voltei mais cansada do que fui e não foi nada demais.
Viu que bonito?
Nada de crescimento intelectual ou alguma epifania monumental.

Um e-mail e algumas considerações rápidas

"from: Felipe
to: Renata

Oiê!
Já estava pensando que você não ia me responder, que com tanta filha, faxina, faculdade e namorado já nem escrevia para os amigos... :)
Que bom, pelo visto está tudo bem por aí, você parece bem mais animada que da última vez que a gente falou.
(trecho que não lhes diz respeito)
E falando de excluída digital, você está chegando 10 anos tarde no Diablo, que já estão fazendo a versão 3!!! Eu gostava muito de jogar junto com a Dani em rede. Já passou do "The Butcher"? É o bicho mais ferrado depois do próprio Diablo. :)
Beijos e muitas saudades! Manda beijos pra Liloca e pra mamãe! E um abraço pro Arnaldo! ;)
Felipe

Date: Mon, 11 Aug 2008 17:28:59 -0300
From: Renata
To: Felipe
Subject: btw

esqueci de te contar que o arnaldo conseguiu fazer uma coisa que eu não imaginava nunca na vida: me deixar viciada em diablo!não pula ainda porque eu tô jogando o primeiro e ainda não terminei, mas penso em você toda vez que me sento no computador. :)"

...Eu descubro jogos com 10 anos de atraso, minhas bandas preferidas também já têm bem mais de 10 anos de vida, apesar disso comprei meu primeiro All Star pouco antes dos 31 anos, saí hoje pelas ruas de tranças no cabelo e fazendo a dancinha da abelha.
Sou praticamente uma velha gagá, como vocês podem ver.

quarta-feira, junho 11

....

Tem dias que são uma merda, saca?
Em que a gente acha que a vida tá uma merda, que nunca vai ter grana pra gastar num Givenchy ou num trinco novo para a porta da frente, que nunca vai conseguir perder 3 quilos numa boa sem ganhar 6 depois, que dói lembrar que a coxa já foi dura um dia, que você nunca vai ter paz por conta de uma trepada mal dada com um espírito de porco que só te dá trabalho, que ninguém mais pode ficar doente esse mês senão você fica sem grana pra pegar o Ônibus, que amanhã é dia dos namorados e o seu nem liga pra isso, que justo o livro que você mais queria não vai ser entregue na sua casa depois de um mês de espera, que existem mais vários livros que você quer ler e ter, mas não tem grana pra isso também; em que a gente somatiza tudo e sente uma dor fulminante no raio do seio nasal que cisma de doer muito toda vez que muda o tempo ou você se aborrece e aí você sente como se a sua pilha tivesse chegado na reserva e tudo o que você quer fazer é dormir na esperança de que amanhã, quem sabe, tudo fique melhor ou pelo mais coloridinho, mesmo você tendo dormido pela primeira vez em meses amsi de 12 horas numa noite; em que você começa a fantasiar com uma barra de chocolates tamanho gigante rebolando e fazendo striptease na sua frente, porque chocolate tem aquilo de compensar frustação, mas você não pode se compensar assim porque senão vai ter que passar uns bons 6 meses sem comer e já vem um casamento por aí e você está gorda e não vai caber em roupa nenhuma com ou sem o chocolate dançarino; em que você pensa que não vai aguentar mais 8 meses sem faxineira ou alguma outra pessoa para dar uma força porque você está extremamente cansada e a sua casa está começando a querer ficar meio podre porque você anda, sim, desleixada, o quê, aliás, foi o que salvou seu o mês já que você descobriu que a sua briga com o ferro de passar fez com que a sua conta de luz também sofresse uma baixa considerável, de toda forma, você precisa de ajuda, mas vai ser obrigada a aguentar, querendo ou não; em que aquele trabalho que você tem que entregar para a semana que vem parece sem salvação e faz com que você se sinta uma burra de marca maior e tenha ganas de queimar todos os seus livros que tratam de semiologia; em que acha a vida uma merda, saca?

quinta-feira, junho 5

Eu e o Banquinho

Tudo aconteceu quando eu estava perambulando pela minha casa naquele meu ritmo frenético e apressado de hora do banho. Exatamente como eu previa, as lâmpadas da casa começaram a queimar e eu, do alto do meu metro e cinqüenta e oito de altura, não consigo trocar a maioria sem ajuda. O namorado até ajudou a trocar a lâmpada da área de serviço, mas a dita é muito fraca e mal brilha no meio das roupas que estão sempre penduradas no varal. Além do mais, enquanto dona de casa eu tenho uma falha grave – que deve ser culpa dos radicais livres já libertos – que é esquecer de comprar pequenas coisas essenciais para uma casa quando vou ao mercado, como pilhas e lâmpadas.
(Por falar nisso, preciso lembrar de comprar cola. Qualquer cola.)
Assim sendo, lá estava eu no meu ritmo frenético e apressado de hora do banho, indo buscar um pedaço de sabão de coco no quarto de empregada, quando dei uma joelhada daquelas cheias de vontade no banquinho.
Fora o palavrão de praxe, meu primeiro pensamento foi “Merda de banquinho! Pra quê que eu fui inventar de pôr um banquinho aqui?!”, e, antes que eu pudesse responder a mim mesma, me vi pensando no banquinho.
O banquinho foi para a minha casa porque EU quis. Foi para a área de serviço porque EU quis. Ele faz parte da minha herança e das minhas memórias de vida.
Nosso relacionamento começou na casa da minha falecida avó. Lá, o lugar dele era no banheiro. Um enorme banheiro de granito rosa (uma coisa medonha, mas que na época devia ser chiquíssimo), onde ele ficava debaixo do enorme espelho de parede com várias divisórias que escondia os segredos de beleza da vovó. Era nele que a minha tia me botava de pé para me enxugar depois do banho. Onde eu subia para xeretar o armário e ver os cremes, maquiagens e a caixinha de talco da minha avó que eu achava o que há de mais luxuoso no mundo. Onde eu brincava de me olhar no imenso espelho e inventava histórias dentro da minha cabeça que eu era uma princesa ou estrela de Hollywood.
Depois de um tempo, o banquinho passou a ser apenas um lugar para botar as roupas e toalhas que usaríamos depois do banho.
Depois de um tempo, foi a minha filha que começou a ficar de pé em cima do banquinho quando saía do banho e que tinha o prazer de ficar se maravilhando com a descoberta da sua própria imagem refletida no espelho.
Depois de um tempo, vovó morreu. O banquinho, junto com um monte de outros móveis (alguns que são hoje meus móveis) foi para um depósito. Quando eu me mudei e fiz o inventário do que iria querer, reabilitei o banquinho.
Eu não tenho um enorme banheiro de granito rosa, nem vou ter – azulejo rosa vá lá, mas granito é muito cafona, né, não? – então, depois de décadas a serviço da beleza e da imaginação, morando num mundo cheirosinho, a solução foi mudar o cargo do banquinho e mudar o seu lugar de destaque para a área de serviço: um lugar não tão cheiroso, nada imaginativo, mas onde ele desempenha a tarefa não menos importante de ser o lugar aonde eu apóio as roupas para lavar ou guardar.
É uma função de destaque, vamos... Imagina se ele não estivesse ali do meu lado...?
Não é pouco.
Pensando bem, o banquinho me acompanha há 30 anos e faz parte da minha história de vida. Engraçado como um objeto tão bobo quanto um banquinho pode desempenhar um papel tão importante na vida de alguém, não? E, olhando em volta, percebi que existem vários objetos aos quais eu me apego e que também fazem parte da minha vida. E, diante de tudo isso, o que é uma mancha roxa no joelho? Sacanagem xingar o banquinho...

quinta-feira, maio 15

Pior que tudo isso?

Viciei.


*MEDO* - Parte III

Dito tudo isto, só o que faltará à minha velhice feliz serão chinelos com pompons, um robe de seda e uma colcha de cetim com estampa de oncinha...

*MEDO* - Parte II

Aliás, eu andei prestando atenção em cabelos ultimamente também.
Aí, de repente, me encantei com os cabelões.
Não com cabelos, mas cabelões, daqueles de crente, que batem na bunda, que a pessoa não corta nem ou por causa de promessa. Aqueles cabelões criados, companheiros de anos, que não sabem o que diabos é uma tesourada ou uma escova inteligente-de-orquídea-chocolate-vinho-placenta, sabe?
Aí, no meio do meu encantamento, quando bateu a paixão, resolvi que não vou mais cortar os meus cabelos. Que eu quero um cabelo amigo. Que a bunda, vasta bunda, há de ter uma companhia. Que quando agarrarem meus cabelos, não vai ter pra Rapunzel.
...

*MEDO*

...Então eu estou aqui, procurando livros, pensando em livros, tendo idéias e cometendo o pecado da cobiça navegando numa lista enoooooooooorme de lançamentos literários quando vejo um, vejo dois, vejo três, vejo DEZ livros da mesma "série" (se não, do mesmo autor).
O lance com esses livros são as capas coloridas onde você vê um amontoado de nuvens, uma coisa meio "Deus vai falar" e os títulos que vão desde "A Alegria da Obediência Fiel", passando por "A Alegria de uma Vida Cheia do Espírito Santo", até "A Alegria do Perdão Completo". Todos na base dos 20 Reais e da Alegria - com maiúsculo! Realmente, eu imagino que para lançar 10 livros com essa temática, eles devem vender bem e o autor deve estar felicíssimo - com ou sem perdão, certo?

É que ontem eu estava andando de ônibus e vi um cartaz de um livro chamado "A Chave Mestra". Não era do filme, era auto-ajuda. O cartaz prometia que assim que a pessoa abrisse o livro, novas portas também se abririam. Há pouco tempo, o grande must da parada era o tal d"O Segredo", que geral lia e jurava que funcionava, mudava a vida e tal.

Eu nunca li nada disso.
Sou péssima de auto-ajuda, seja ela lida ou feita por mim mesma. Pró-boicote total.
Na época em que isso começou a aparecer por aqui (por "isso" subentendam essa mania de auto-ajuda), eu era muito nova, não entendia nada dessas coisas complicadas e filosóficas da vida e meus maiores interesses eram rapazinhos bombando de hormônios e um bom e velho rock'n'roll. Mas eis-me aqui, aos 30, uma balzaca, cheia de cabelos brancos e responsabilidades, sendo bombardeada diariamente pelas "7 Orações que vão mudar a sua vida" e pensando: "Cara, será que essa porra dá certo mesmo?".
Porque tudo que as pessoas dizem que ajuda e não me atrapalha a vida, tipo saco de São Cosme e Damião, vasinho de arruda, borrifo de álcool canforado pela casa, espelhinho na varanda, comer 12 uvas no reveillon e guardar a rolha da champanhe, tomar banho de sal grosso, comer nhoque dia 29, carregar alho na bolsa, essas, eu faço; mas auto-ajuda eu nunca tentei...
Será que funciona?
Será que essa vai ser a minha nova loucura...?
(Eu tinha uma coisa ótima da Olívia pra contar, mas me escapou...)

Pequeno parênteses

(Vale dizer que naquela época eu ainda não tinha o cagaço que eu tenho de transportes públicos. Vale dizer que naquela época eu não tinha o horror que eu tenho hoje de gente que tem pressa. Naquela época, talvez eu também tivesse pressa, mas fiquei velha e cheguei à conclusão de que gente com presssa só faz merda e morre cedo; não vale a pena. Fecha parênteses.)

Gastando as sete vidas

No meio das minhas reclamações, ponderações e decisões que eu não levo a cabo, ontem entrei de novo num 434.
Toda vez que eu entro no ônibus com a Olívia, passo ela primeiro pela roleta, sento ela e então vou pagar a passagem. Pela primeira vez a menina voou do banco e deu uma pirueta.
Já nesse início eu soube que a viagem ia ser barra pesada, mas, como eu sou um poço de teimosia, continuei dentro do veículo.
E o motorista continuou correndo absolutamente insandecido.
A uma senhora que teve peito de reclamar, exclamou:
- Quê que é, hein?!

Quando chegamos na Pompeu Loureiro eu já estava nauseada, mas me convenci de que era pouco chão, que era uma besteira saltar do ônibus e que ônibus não viram e batem com a facilidade com que o meu medo me ataca.

Na curva da Lagoa - aquela curva que me dá enjôo todo santo dia há anos, onde eu sempre acho que o ônibus vai virar - o homem ao invés de ir mais devagar, acelerou como se estivesse numa corrida de Fórmula 1. Desculpa, eu não sei dirigir (opção própria por ter medo de porrar o carro por aí e, de repente, quem sabe, atropelar a sua mãe, coitada), mas não é para a pessoa diminuir quando tem uma curva pe-ri-go-sa?
E, de fato, o ônibus quase virou. Bambeou seriamente pro lado e não foi minha imaginação. E o sujeito a-ce-le-ran-do.
Eu, que durante a semana, todas as semanas, só penso cá comigo dentro da minha cabeça "mas precisa correr assim?", "tem necessidade de correr assim?", "que pressa é essa, meu amigo?"; não me agüentei dentro de mim e soltei aquele berro:
- Vai devagar, moço! Tá correndo demais!
Não gosto quando eu grito desse jeito porque a Olívia fica com medo e eu não sou muito fã de disseminar o medo na criança, mas gritei.
O sujeito riu e... acelerou!!!
Depois de me deixar no ponto, dando uma parada daquelas em que o passageiro é praticamente cuspido de dentro do veículo com ele ainda em movimento, ainda furou o sinal vermelho sem a menor preocupação com as pessoas que atravessavam.
De pernas bambas e quase fazendo xixi nas calças, prometi a mim mesma que nunca mais pego um 434 enquanto houver algum resquício de sanidade na minha mente.

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Só tinha visto um motorista tão possuído assim uma vez que fui à Niterói (sim, até eu já fui à Niterói) e estava lá suando dentro 996, que chacoalhava freneticamente, quando um velhinho vinha atravessar a rua e o motorista soltou uma gargalhada digna de vilão de filme (MUAHAHAHA) e acelerou pra ver se o velhinho escapava.
Escapou.

Que nem eu.

Amém!

segunda-feira, maio 12

Mil coisas

Todas as vezes que eu desco de um 434 é como se Deus me abençoasse e dissesse que eu mereço estar viva. Praticamente um renascimento.
Eu poderia facilmente resolver isso esse ritual esquifênix meu se:
a) o metrô finalmente chegasse a Ipanema;
b) eu fosse rica o suficiente para poder pagar taxi todos os dias da semana (ultimamente é coisa de uma vês por mês e em casos de extrema emergência);
carro eu descarto porque se eu dirigisse, provavelmente bateria ou atropelaria alguém, fora que eu acho que mocinhas sozinhas dentro de carrinhos são alvos quase tão apetitosos para os marginal da vida quanto mocinhas sozinhas na rua de madrugada a pé.
Como se pode ver é um caso sem solução.
Meu medo é que o coração pife numa descarga de adrenalina dessas antes que o metrô chegue ou eu ganhe a mega sena.

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Peguei uma gripe matadora.
Passei a minha sexta-feira de faxina completamente inútil, me arrastando entre o sofá e a cama, gemendo, sem ar. Nem o banheiro eu consegui limpar!
O bom é que o namorado foi cuidar de mim com sopinha em punho.
O ruim foi que não só eu passei pra ele, como ainda continuo com ela.
Gripe é uma parada escrota. Porque não só não é nada, como te derruba e os remédios pra ela são caríssimos; e as pessoas que não podem ficar gripadas por uma, duas semanas, caem em desespero e acabam tendo que comprar um pequeno arsenal de vitaminas, anti isso e aquilo e ficam boas, mas falidas (meu caso).
Descobri que vários amigos estão com ela, por sinal.
Será que ela já tem nome...?

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Pela primeira vez desde o colegial vou tirar notas medonhas, discuti com um professor, estou com espinhas no focinho e tudo que eu consigo pensar perante essa desgraça toda é que eu queria era estar dormindo.

quarta-feira, maio 7

A GB

A Grande Bosta de não escrever com regularidade é deixar de registrar formalmente coisas espetaculares que te acontecem. No meu caso, que tenho uma filha em fase de crescimento e desenvolvimento de uma super personalidade, é deixar de registrar coisas espetaculares que me acontecem por causa dela.
Por exemplo, semana passada uma chuva torrencial alagou e atrapalhou o Rio de Janeiro - conseqüentemente, a minha vida. Num desses dias de água, passei o dia in-tei-ro na rua resolvendo várias coisas, e, como eu não acredito em guardas-chuvas, conseqüentemente, passei o dia encharcada.
Às sete da noite, quando costumo chegar em casa, meus pés faziam poçinha dentro dos tênis e já doíam, eu sentia um frio desagradável, estava suja, cansada, molhada e tudo o que eu queria na minha vida era chá, sopa e pijama (coisa de velho, eu sei e assumo). Então fui trocar de roupa. Era dia de semana e em dia de semana não tem namorado em casa, então meu alvo foi logo sacar uma calcinha de "dia sem namorado em casa", bem grande e confortável. Nisso, eis que chega meu pequeno furacão, me olha, passa a mão na minha barriga e solta:
"- Foi a sua avó que te emprestou?"
E eu, chocada:
"- Não, Olívia, é minha. Por que, é feia?"
"- Não, é bonita. Mas não foi a sua avó que te emprestou?"

3 anos e já me dá esse tipo de fora fenomenal...

E tem mais, muito mais... Todos os dias...
Pena que eu não esteja escrevendo regularmente...

segunda-feira, abril 28

Mudança

Tá. Mudança.
Toda mudança exige adaptação.
Por mais que eu já tome banho no banheiro achando que o banheiro já é meu há muito mais tempo do realmente é, por mais que eu já dê uma circuladinha ou outra despreocupada sem roupa pela casa, por mais que a minha cozinha seja meu santuário...Por mais que tudo isso, não posso dizer que já esteja 100% adaptada.
De vez em quando, coisas me fazem falta.
Não só as materiais. Acho que precisar me privar de certas coisas pode vir a ser muito pra mim.
Mas de pessoas.
Por um lado, eu me sinto tão feliz e tão bem na minha casa que eu simplesmente não tenho vontade de sair de lá. Mas, por outro, houve um tempo em que querendo ou não eu saía de casa para ver outras pessoas. Eu ainda não estou certa de se isso é velhice, se é normal, se faz parte do “ficar madura e responsável”.
De qualquer forma, tive um ataque esse final de semana.
(Final de semana sozinha, playground do diabo!)
Me deu uma saudade, mas uma saudade imensa de vários amigos, muito amigos, pouco amigos, só amigos que eu tenho nessa vida. Sexta à noite eu olhava pro celular e queria ligar pra todos, abraçar todos, saber de todos. Ontem ouvi várias músicas que me lembravam dessas pessoas e dos tempos em que a gente andava junto e era muito feliz mesmo quando estava triste.
Eu continuo feliz mesmo quando estou triste. Aprendi que tudo tem jeito nessa vida e que a gente tem super que acreditar naquele clichêzinho básico do “tudo vai dar certo”.
A pior mudança de se adaptar, não é a de espaço, a dos móveis, a de bairro, de responsabilidades; é a do tempo.
Eu sinto muito.
Sinto muito, mas hoje eu já não saio mais para as boates da moda porque, a meu ver, não existe nada que eu possa querer conversar gratuitamente com uma pessoa anos luz mais nova que eu e que não combine em nada comigo. Eu vou às boates hoje e me sinto a “tiazinha” do rock. Passou, sacumé?
Sinto muito, mas eu não tenho mais pique para ficar dançando ou zanzando por lugar nenhum até amanhecer, estou ficando bêbada com a terceira cerveja e voltando automaticamente pra casa depois da sexta porque passei a ter horror de ficar de ressaca (depois de uma certa idade, você esquece as coisas e a sua cabeça dói como se tivessem deixado aquela bigorna de desenho animado cair bem em cima do seu crânio).
Sinto muito, mas eu aprendi que amigo de bar é ótimo no bar, mas não presta para absolutamente nada fora do bar, que teve um tempo que eu deixei meus amigos de verdade de lado por eles e que nunca deveria ter feito isso.
Sinto muito, mas eu tenho contas a pagar e uma criança para criar, então não posso gastar rios de dinheiro em birita, nem fazer mais strip teases na rua ou pegar conduções sinistras para lugares longínquos e sinistros de bobeira.
Sinto muito, mas, na verdade, quando chega a noite eu quero silêncio. Ouço rádio baixinho, tv baixinho, essa coisa de som alto no cérebro é para pessoas jovens, as velhas ficam nervosas, não se amarram muito. Eu achava que era um mito, mas é real.
Sinto muito, mas multidão suada se espremendo, me espremendo, alegre e feliz no meio de uma densa cortina de fumaça não exerce mais o menor apelo junto a minha pessoa. Eu, que fumo, fico desesperada hoje em dia para jogar as minhas roupas fora depois que freqüento esses lugares.
Sinto muito, mas eu sou deveras educada para viver em sociedade.
Nunca achei que eu fosse ficar assim. Pelo menos não tão cedo. Nos últimos 3 anos, eu mudei de tal forma, que quem via por aí e conversava comigo na rua, hoje não pode mais dizer que conhece. Talvez tivesse que ser mais tarde, mas quer saber...? Eu não ligo.
Ligo pra muito pouca coisa hoje em dia.
Feliz ainda que triste.
Tudo vai dar certo.
Só tenho que correr atrás dos abraços que eu estou devendo por aí...

quinta-feira, abril 24

No virtual life, saca?
Mortalmente envergonhada da baixeza cultural que me acomete.
Empacada nos simeologistas, no romance mela cueca, nos estudos.
Nem um show ainda.
Nem fazer as unhas eu consigo!
É o ano do apocalipse!

terça-feira, abril 1

Segredos de Casa Nova

A rotina de uma casa é cheia de segredos e surpresas.
Assim como a maternidade, essa rotina carrega diversos mitos e verdades que ninguém nunca te contou.

Meu problema aquático, por exemplo, descobri que tem nome: câncer de água!
Segundo a minha mãe, esse é o nome dado quando seus canos começam a jorrar enlouquecidos e pedir para que você gaste rios de dinheiro e paciência na contratação de um pedreiro.
E, sim, surgiu mais um problema aquático depois do post. Eu só resolvi ignorá-lo solenemente.

Há uns anos atrás, em quando descrevendo um problema doméstico/emocional que teve, meu pai (que, por sinal, aniversaria hoje e vocês não têm nada a ver nem se importam nem um pouco com isso) me descreveu com um olhar de gozo e aconselhou: “Quando você derrubar uma geladeira, minha filha, lembra de abrir a porta antes. Aquele bando de pote, fruta, comida, água, caindo antes dela no chão e se espatifando é uma maravilha! Lembra de abrir a porta!”.

Então, sábado passado eu lembrei demais disso. Lembrei porque eu descobri uma maravilha de casa! Ao contrário do meu fabuloso pai, a filha saiu à limpeza. A filha sabe há muito tempo que o pior sintoma de paixão nela é quando ela se sente compelida a lavar cuecas e limpar cozinhas – quando a vontade de limpar a cozinha do cara se torna insuportável, é uma pusta paixão. (Vale ressaltar aqui, que eu já matei essa compulsão com o meu namorado, na maior felicidade.) E, a filha, descobriu que, na casa dela, poucas coisas a satisfazem mais do que limpar o banheiro.
E sábado, eu não só limpei, como lavei o banheiro.
Lavei igual gente lava carro – de balde e esponja na mão.
E, toda vez que eu chegava na porta do banheiro, e jogava aquele balde cheio d’água para dentro do banheiro e fazia aquele “chuááááá” cheio de sabão pelo chão, eu lembrava do papai e pensava “Ah, se papai soubesse o tesão que dá limpar isso!!!”.

Isso é um dos segredos da casa.
Ninguém te conta que lavar banheiro dá um tesão incrível! Que cura briga com namorado, tira a cabeça daquela conta de dez milhões de reais que você tem que pagar, da raiva que você fica quando discute com quem não deve, de que existe um bando de gente estúpida no mundo, que a sua filha está pedindo uma boneca caríssima e você não dinheiro pra dar... Essas coisas.

Ninguém diz também que passar roupa é uma das tarefas mais bisonhas de se ter uma casa. Todo mundo ama dizer “minha casa isso, minha casa aquilo”, “eu faço isso, cuido daquilo”, mas A Hora da Tábua ninguém comenta!
É até bastante lógico que, numa casa onde se lava uma tonelada de roupas por mês, também é preciso que se passe essa tonelada de roupas por mês. Para homens solteiros essa observação é absolutamente nula, visto que, tirando um ou dois, todos os outros homens solteiros não passam uma peça sequer de roupa, a não ser que queiram comer alguém específico em alguma ocasião específica, o que também quer dizer que, se você já for namorada dele por mais de três meses, esse fenômeno só vai acontecer se for seu aniversário – e ainda assim se tiver festa, se for jantar em casa, pode desistir.
Mas, enfim, A Hora em que a cidadã aqui se dirige à sala com aquela saca enooooorme, e a tábua e o ferro, é uma Hora triste. E longa.
Algumas coisas servem de consolo, como executar essa punição enquanto rola o “Fantástico” ou o jornal (qualquer um deles), mas mesmo assim, depois de um tempo a coluna começa a reclamar e lembrar que você não tem mais 15 anos para abusar dela assim e que a sua postura é péssima e você deveria tomar vergonha e usar um colete ortopédico, o ar começa a ficar quente e você começa a suar- coisa que você detesta, sua filha começa a passar perto do ferro com uma insistência em ter um acidente quase cruel – fora as vezes em que ela pede para ir ao banheiro fazendo você parar. Depois de um tempo extremamente longo, onde a sacola parece a bolsa do Gato Félix que cabe coisa até não acabar mais, você consegue terminar.
Mas, essa tarefa, eu consigo entender perfeitamente porque ninguém comenta, é ruim, é chata, é feia, é um inferno.

...E o horror de limpar um fogão para fazer comida e sujar de novo em meia hora? Tem dia que eu sugiro comer na rua, ou biscoito, ou qualquer outra coisa só para me privar da decepção que é você ver aquela coisa limpinha prateadinha virar um mar de respingos oleosos.

E, a maioria, não te conta essas coisas todas porque não faz essas coisas todas. A maioria tem faxineira.

Particularmente, pode ser chato, massacrante, pouco glamouroso, mas são esses segredos e perrengues que fazem uma casa, em especial uma casa nova, valer a pena.